sexta-feira, 9 de março de 2012

E das cinzas eu fiquei feliz!

Enquanto o relógio tragava o tempo rapidamente, ela batia seu cigarro no cinzeiro, deixando cairem as cinzas. Uma brisa leve e mentolada entrava pela janela.
Sentia-se Clarice Lispector, ali, as quatro horas da manhã, com seu cigarro, suas pernas brancas e magras e seu vazio inexorável no peito. On The Road era mesmo um livro maravilhoso, assim como A Hora Da Estrela, Morangos Mofados, Seminários Sobre Sonhos de Crianças e até Castañeda - ela não se lembrava do que exatamente lera dele, lembrava de muitos títulos, mas nenhum era o que havia lido - que, assim como as bonecas fazem na infância, havia lhe salvado a vida em seus tempos de imaturidade.
E, enquanto a noite corria solta, enquanto um cigarro era aceso na bituca pulsante de outro, enquanto as estrelas se apagavam num céu longínqüo (porque não há estrelas no céu de São Paulo), nossa pequena Clarice adormecia em seu mundo de sonhos.
E, depois de estudar um pouco de psicologia, ela não desejava mais nada, a nao ser...
Sua própria e louca condição humana. Nem escritora, ela era: apenas humana. E que absurdo tão grande era aquilo: viver suspensa, sorrir, amar, chorar e odiar tudo tão intensamente!
A arte, expressão do conflito, comeu a fé e cagou a liberdade!

sexta-feira, 2 de março de 2012

Mirror

O pio da coruja me assusta um pouco. Não sei por que falar disso agora, agora que os dias são mais ensolarados - embora não tão verdes quanto eu gostaria.
Mas é que à noite as corujas piam, anunciando um mundo que ninguém vê, um mundo que ninguém sente, e corujas estão sempre dizendo: tome cuidado.
Um dia ainda serei mais direta. Por enquanto, essa condição me assusta. Me assusta porque... não sei se sou capaz de lapidar a mim mesma. Na forma bruta, posso voar, como as corujas que me intrigam. Mas não sou uma delas. Nunca sou nada, sou vento, sou só uma brisa que pensa ser coruja, sabendo que não é, mas tendo certeza de que acreditar já me basta pra compreender o que elas, as corujas, compreendem e anunciam.

Mas nada sei, porque, mais do que vento, sou humana, e os humanos pouco sabem de seus conflitos, só que... a vida é , talvez, um filme agridoce, uma bebida amarga que vicia, porque chega a ser doce o suficiente a ponto de... de quê? Não sei explicar. Apenas gosto, gosto imensamente e com tudo de mim, de estar viva.
Sou humana e nao sei explicar o que é - o que sou. É mais fácil, admito, falar das corujas. Assim estou protegida, assim eu sugiro, eu sopro, não falo.
Mas ainda vou criar coragem. E, quando isso acontecer, vou estar pronta pra servir a todos uma porção de estrelas cadentes, cigarros apagados, e fios - fios de ralacionamentos, famílias por um fio e tantos nós, nós... um ou outro laço. Nem amargo, nem doce.
Não sei se servirei morangos mofados, como um certo amigo meu. Mas sei que, quando eu criar coragem, quando eu criar coragem...
Eu vou ouvir aquele disco dos Stones: let it bleed.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

O Gato

Hoje sou um gato. Quero subir em muros, trepar em árvores e perseguir borboletas no jardim. Quero caçar ratos, assustar pombos e comer baratas.
Hoje sou gato: tenho sete vidas pra gastar...

E uma anatomia própria,
pra cair de pé.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Sobre baratas, homens e outros tipos de diabos

O diabo se escondeu embaixo da cama
Com suas patas peludas
Asas cascudas
E voz de sereia
La fora, outras criaturas me assustam
A noite chove feito um rio de mágoas,
Um rio de medos intermináveis que me afaga
(Afaga porque a dor... não é minha,
Tampouco da chuva)
E um outro mundo sopra sobre o telhado.

O diabo também tem medo.
É tão feito e tão sujo que...
Mas as pessoas lá fora são mais.

E, enquanto o tempo escorre,
Enquanto o mar se enche de nuvens,
Eu fico aqui: eu e o diabo.
Porque é mais fácil matá-lo
Do que me livrar da amargura dos homens.

Basta um chinelo.
Não é preciso Coragem.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

A Flor

Existe um monstro adormecido dentro da flor. Enquanto ela dorme, enquanto sonha, o monstro desperta e toma conta de todo o seu corpo, todas as suas pétalas frágeis e ásperos espinhos - que ela tenta disfarçar entre as pétalas delicadas, mas opacas. O monstro é tão grande que mal cabe na flor. Mas está lá, aguardando pacientemente. E, no pesadelo da flor, ela é uma rosa tão grarnde, vermelho vivo sangue velho instinto floral, ó, desabrochar!! O pólen, o mel, o sexo das plantas...
Mas a flor cor-de-rosa é triste. Tristemente bela, graciosa, mas não, ela prefere o monstro, prefere ser a rosa vermelha, prefere estar viva, prefere espalhar seu pólen por todo o jardim, contaminá-lo com seu sexo.
Mas acorda, e a realidade pequenina a desperta para um novo dia, uma velha culpa e um medo único.
Seu corpo queima no jardim dos inocentes, suas pétalas enganam, mas ela ja nao sabe mais quem é. Está mudando de cor, como um grito escarlate na noite pálida.
A flor... já não é mais flor.
A flor... é o monstro.
E, como o diabo, como o Amor e como a guerra, já não teme, nem sangra. É apenas um rastro no céu estrelado, de uma flor que foi mas passou...
O monstro, o monstro... não era flor. Era rosa vermelha, sangue e Amor.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Noite no Lago - a maçã de Petúnia

À margem esquerda do espelho, há uma criança vestida com uma capa branca. A menina me perturba, mas fascina. Ou fascina, mas perturba. Está parada e sinto que ela pode me ver ou, ao menos, sabe da minha presença, sente meu cheiro, o cheiro do futuro e do desconhecido. Talvez ela saiba até mais do que eu.
Está serena, contudo, serenidade esta que me assusta, incomoda, eu a desejo mas o tempo é ingrato com a gente.
A lua reflete na superfície gelada do lago, todos sabemos, entre galhos secos de árvores, cipós mortos e flores rasteiras. Aqui é o coração da floresta, uma clareira misteriosa distante do verde fértil e denso.
Do fundo do lago, minha redoma de vidro, presa em mim mesma, espio a margem direita com o canto do olho; treva incompreensível. Mas espere... há olhos que brilham assustadores como estrelas mortas no escuro. Quanto ao futuro, quanto ao futuro...
Minha garganta coça, há algo que não consegui engolir, que quero cuspir ou vomitar. Mas estou presa no fundo do espelho.

sábado, 21 de janeiro de 2012

As Águas

Existe uma coisa nas rochas do mar que não sei explicar. É a mesma essência dos dias que, intermináveis, se esvaecem, são levados pelo vento que ninguém vê...
Há uma paz infinita em saber. Olho para o mar constantemente, por isso não noto mais o tamanho das pedras, mas sei - algo em mim sabe - que, antes que o dia amanheça, elas não estarão mais lá.
A vida é uma noite interminável, e o sol... É um sonho. Sei que, quando reduzidas a areia, as pedras não me impedirão de nadar. De dia, todos os corais irão cantar o meu retorno, meu retorno à minha casa, ao meu mar, que meu avô me deu.
Temo encontrar minha morte na boca afiada de um tubarão, mas o sol nascente está chegando, está chegando, as estrelas se despedem e eu sei, eu sei... Preciso ir, preciso ir... Mas o medo... Devo ir? Aqui na terra tudo é mais seguro, não há tubarões, mas não há fluxo, não há água, não há vida... Pelo menos, não a minha.
O mar é meu. A vida é minha, e não vale a pena não vivê-la por medo de nadar. Nasci peixe, eu sei nadar. As águas irão me guiar, enquanto o mar for meu, enquanto eu respirar.
Mundo estranho este, não? Difícil é saber pra onde ir, diante de tantas escolhas, de um sim, de um não que podem mudar o mundo, deixando-o sempre mais estranho. Tudo começa e termina no lugar certo, na hora certa...


"Faça isso", "faça aquilo", "assim está errado", "tenho um conselho", "por que você não faz tal coisa?", "você precisa disso", "você precisa daquilo"...


Hoje aprendi uma palavra linda, mamãe, aprendi a dizer não...

"Não!"
"Não?"
"Não!"
"Então o quê?"
Respiro fundo: "eu vou nadar."